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11 de abr. de 2010

Coracao

"Nao se via nada em parte alguma, excecao feita dos esparsos e minúsculos flocos de neve, que vindos da brancura do céu, desciam até a brancura do solo. O silencio em volta dele era impressionantemente vazio. Enquanto seu olhar se refrangia no vácuo que o deslumbrava, Hans Castorp sentiu como seu coracao, agitado pela subida, comecava a latejar - esse orgao musculado, cuja forma animalesca e cujo mecanismo ele espreitara, talvez defandamente, por entre os crepitantes relampagos do gabinete de radioscopia. E uma espécie de comocao apoderou-se dele, uma singela e devota simpatia por esse seu coracao, o coracao palpitante do homem, que pulsava, nesse ermo glacial, tao sozinho com seus problemas e seus enigmas."

3 de mar. de 2010

Vida

A consciencia de si mesma era, pois, uma simples funcao da matéria organizada em prol da vida, e numa fase mais elevada dirigia-se a funcao contra o seu próprio portador, convertia-se no desejo de pesquisar e explicar o fenomeno ao qual deu origem, na tendencia esperancosa e desesperada da vida para se conhecer a si própria, na auto-investigacao da natureza que sempre acaba sendo va, visto a natureza nao se poder resolver em conhecimento e a vida nao ser capaz de contemplar os últimos segredos de si mesma.
(...)
Que era, entao, a vida? Era calor, o calor produzido pela instabilidade preservadora da forma; era uma fébre da matéria, que acompanhava o processo de incessante decomposicao e reconstituicao de molécula de albumina, insubsistentes pela complicacao e pela engenhosidade da sua estrutura. Era o ser daquilo que em realidade nao podia ser, daquilo que, a muito custo, mediante um esforco delicioso e aflitivo, consegue, nesse processo complicado e febril de decadencia e renovacao, chegar ao equilíbrio do ponto do ser. Nao era matéria nem espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenomeno sustentado pela matéria, tal e qual o arco-íris sobre a queda d´água, e igual a chama. Mas, se nao fosse material, era sensual até a volúpia e até o asco, o impudor da natureza tornada irritável e sensível com respeito a si a própria, e a forma lasciva do ser. Era um movimento clandestino, mas perceptível no casto frio do universo, uma secreta e voluptuosa impureza composta de succao e de evacuacao, uma exalacao excretória de gás carbonico e de substancias nocivas de procedencia e qualidade ignotas. Era a vegetacao, a desenvolucao, a canfiguracao - possibilitadas pela hipercomposicao da sua instabilidade e controladas pelas leis de formacao que lhe eram inerentes - de uma coisa túmida de água, de albumina, de sal e de gorduras, coisa que se chamava carne e se coonvertia em forma, em imagem sublime, em beleza, mas, ao mesmo tempo, era o princípio da sensualidade e do desejo. Pois essa forma e essa beleza nao eram conduzidas pelo espírito, como na obras da poesia e da música, nem tao pouco por uma substancia neutra, absorvida pela espírito, e que o encarnasse de uma maneira inocente, como o fazem a forma e a beleza das obras plásticas. Era, pelo contrário, conduzida e elaborada por uma substancia da própria matéria organica que vivia se decompondo, pela carne cheirosa...

4 de fev. de 2010

Impulso

O indivíduo pode visar numerosos objetivos pessoais, finalidades, esperencas, perspectivas, que lhe deem o impulso para grandes esforcos e elevedas atividades; mas, quando o elemento pessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, nao obstante toda agitacao exterior, carece no fundo de esperancas e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silencio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas a todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda atividade e de todo esforco - entao se tornará inevitável, justamente entre as naturezas mais retas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e organica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa e medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória à pergunta "Para que?", é indispensável ou um isolamento moral e uma independencia, como raras vezes se encontram e tem um que heróico, ou entao uma vitalidade muito robusta.