19 de ago. de 2011

Correspondencia

Mensagem da vó Tico:

Oi Fê querida, fico feliz em saber que suas férias tiveram um saldo positivo. O Gerson é uma gracinha; percebo que ele lhe faz bem. É isso que importa nos relacionamentos. Sinto muito não tê-la por aqui, não poder "pegar" em você. A distância judia muito dos velhos, nosso futuro é sempre muito incerto...não sei se estarei outras vezes com você. Você é uma neta muito querida, sua figura está sempre presente em mim. Sua ausência é uma das minhas grandes frustrações. Ainda bem que você está feliz! Estamos aguardando o casório da Bruna; depois lhe mandarei notícias. Beijos...muitos beijos da vovó Teresinha.


Resposta:

Oi minha avo. A vida tem seus movimentos, suas ondas, que as vezes nos levam longe. Faz parte dela e da nós e muitas vezes nao podemos evita-los, pois a correteza é forte. Voce, estou certa, conhece-os melhor do que eu. Acredito que seu primor esteja em descobrir quem somos e quem queremos nos tornar e que nisso incute-se a inevitável escolha de um caminho, essa liberdade, fardo inegavel na condicao daqueles que querem mais do que tudo ser e tornar-se. Essa é minha estranha sina que muitos nao parecem compreender. A mim, muitas vezes, também parece estranha. Mas a Alemanha, ou talvez nem ela, mas a simples saida do Brasil, trouxe-me horizontes necessários para uma alma inquieta e cheia de vontades. Antes de tudo, ter nascido carvalho raggi thome de souza, me trouxe liberdades raras à muita gente. Além da mordomia privilegiada, incomum em quase todo o mundo, ganhei amor, nocao de familia e uniao, de participacao e pertencimento, aconchego e porto seguro. Nao estou só, amém! Em seguida, sendo paulistana, ganhei o ir e vir que só as cidades grandes tem, e nas suas diferencas e suas diversidades as opcoes de caminho. Ser brasileira me deu a música e a poesia, que me ensinaram tanto sobre viver pelas maos e bocas de mestres que amo como único nacianalismo ainda de direito. E entao vieram os petiscos de mundo, oferecidos com tanta sabedoria por pais os quais gabo como mais um privilegio. E nesses pedacinhos de mundo, nessas vidas tao distintas da minha e entre em si, espalhadas pelo superficie da terra em outros tempos, climas, crencas, sonhos e morais, que percebi a fachada das fórmulas em que me colocaria se nao saisse do casulo. Nao me caberia outra hora melhor a partir e, por outro lado, ficar assim tao cedo estabelecida onde nasci, numa vida, aos meus olhos. tao pré fabricada por outros, era de uma liberdade demasiadamente mentirosa para mim. A minha partida, e com ela minha permanecia estrangeira, foram movimentos naturais de quem já nao cabia onde estava. Eu sabia das infindos leques de opcao na terra e, negar o mínimo que me chega, seria negar-me mim mesma. E esse preco, acreditande na unicidade da vida, eu jamais poderia pagar. Esse é o grande e único motivo da distancia. Escolher num estojo de lapis de cor aquerela ainda maior que o Brasil a cor - ou as cores - que melhor pudessem pintar aquilo que a cada momento significa a minha vida.

Devo ter lhe soando estremanete abstrata, mas quando se trata de alma, essa coisa tao impalpavel, deve-se tomar cuidado para deliniar-lhe linhas e lógicas. É quase como falar do tempo ou de deus. Inodoros, invisiveis, intocaveis, mas constantes, poderros e onipresentes.

Pela sua historia, a qual considero bela, forte e tomada por decisoes tao cheias de si, sei que me compreende.

Aliás, estou lendo Senhora, de José de Alencar. E amando, consumindo com ansia e sem poder frear. Já leu esse livro, vó? O que achou?

Te amo e sinto, assim como voce, sempre saudades. Esse preco alto dos que navegam.

Soube de um almoco hoje no pote, me conte depois como foi.

Beijos grande

Fe

16 de abr. de 2011

6 de abr. de 2011

O bom humor alemao


Ou sua forma prática de obsevar o óbvio.

Foca = Seehund = cachorro do mar

achei divertido e cheio de sentido

1 de abr. de 2011

A morte de Luisa

" - E vai fazer isso por mim, Sebastiao, por mim, que fui tao ma mulher...
Sebastiao corou, respondeu encolhendo os ombros:
- Nao ha ma mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, ´e o que ha!"

Trecho de "O Primo Basilio" de Eca de Queiros

26 de mar. de 2011

Stuck In The Middle With You



Vicío novo, remédio pra "low energie", trilha da pista de danca do meu quarto, única que venho frequentando nos últimos tempos.

2 de mar. de 2011

Bye Bye Brasil

"Agradeço, hoje, a visita de Vida que você me fez e a sua bondade, e os seus olhos, e o seu sorriso de criança. E me fico pensando na vida das naus que partem deste porto de pedra, que se vão para seus destinos pela costa, pelas enseadas, um amor em cada porto, um porto em cada trecho de areia, e o sonho que perseguem com as suas velas brancas abertas aos ventos, brancas velas de alvíssimas aves, o olhar audacioso bicando a cortina distante do horizonte. O mais, sim, o mais é viagem"

Carta da Maú - Pagú

4 de fev. de 2011

Nina Simone - Don't let me be misunderstood

Baby, do you understand me now
Sometimes I feel a little mad
But don't you know that no one alive
Can always be an angel
When things go wrong I seem to be bad
But I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood
Baby, sometimes I'm so carefree
With a joy that's hard to hide
And sometimes it seems that all I have do is worry
Then you're bound to see my other side
But I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood
If I seem edgy I want you to know
That I never mean to take it out on you
Life has it's problems and I get my share
And that's one thing I never meant to do
Because I love you
Oh, Oh baby don't you know I'm human
Have thoughts like any other one
Sometimes I find myself long regretting
Some foolish thing some little simple thing I've done
But I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood
Yes, I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood
Yes, I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood

17 de dez. de 2010

10 de dez. de 2010

Ao que sente

Ao meu pai, que me ensinou sobre mergulhos; nas águas, na ciencia, na vida, na arte, no eu. Ao mar que perdoa tudo. Ao azul que liberta. Aos buracos negros e também aos seus mistérios. Aos cumes e entre eles aos negativos , que me seduzem em especial. Aos folegos roubados e ao deleite que despertam no corpo. Ao sal no corpo. Ao corpo. Ao silencio e ao realce que empresta aos olhos e coracao. Aos saltos, às quedas, aos pés no chao. Aos retornos impossiveis. Ao reecontro, ao direito, à conquista da superficie depois de viver tamanha profundida.

28 de nov. de 2010

23 de nov. de 2010

Ao ex amante, ao novo amigo, a carta velha e guardada que encontrei

Nao, I´m really sorry, mas acho que nao posso. Nao consigo, nao sei. I´m sorry, mas nao me é possivel. Ou nao estou pronta. Nao pra voce, mas pra mim, o que é muito mais grave. Nao quero. Talvez precise, mas nao sei como, nao sei por onde. Ou nao me cabe, nao me pertence. Fique com isso tudo pra voce, ou entregue a quem saiba compreender-te. Pois eu nao sei nem de mim, e com voce me tornei mais complicada a mim mesma. E já me bastavam as velhas e gastas complicacoes. Ha coisas, muito antes destas, a serem tratas e compreendidas. Sou crianca e me deixe ser.

22 de nov. de 2010

A vida que me pertence no presente momento

O suvaco peludo, o mau humor, o esmalte descascado, as meias sem par. A boemia incessante, a sindrome de Peter Pan. A negacao ao casamento, à rotina, à obediencia e à normatizacao. O nao pelo nao, a birra. O sim, pelo sim, a indiferenca. O vício pelo café, pela alcool, pela noite e outras cositas mas. A inconstancia, a descerimonia. A vadiagem, o desapego, a preguica, o sono profundo, a afetacao. A solidao, a dúvida, o questinameto. A alienacao, o esquecimento, a busca, o ingenuo mas ativo engajamento. O mes carente de fim de semana e de segunda-feira também. As dividas, as calcas curtas, o dinheiro nao poupado, o tempo gasto até o último vintém. O quarto do avesso, as diferencas acertadas, as pequenas comunidades, as áreas comuns. O eu, o outro, o nós. As disciplinas pessoais, os limites, as forcas. Os desentendimentos, os diálogos, a impermanacia, a partida e o ficar. A inseguranca, a carencia. O teto, o cobertor, o carinho, a geladeira, o calor e a banheira dividos em muitos sem quase nao faltar nada à ninguem. Os jantares sem ocasiao, a luz de vela. O sexo sem dono, o coracao ocupado. Os incontaveis passados, o único presente, o futuro impensado. As possibilidades, o anonimato. Os semi-empregos, a vida paralela, os projetos, crencas, aspiracoes e frustracoes tao sortidos quanto pessoais. O tempo livre, a fadiga, a tosse, o nariz escorrendo. As contas, a roupa de cama e banho, a louca, pecas de jogos incompletos, guardados com singela ordem num único armário de todos. As mentiras sem maldades, as verdades insensieis. A arte, o casameto político, as amizades adiplomáticas. O medo e a coragem, as paredes sem acabamento. A indiferente opcao sexual e sua maleabilidade. A experincia, o cansaco, o abatimento. A fuga, a fulgacidade, o desassosego. A vida que me pertence no presente momento.

Cheguei a Berlin vestida de planos de fachada, corregando na mala todos os meus segredos. Era 29 de fevereiro, dia quase inexistente em calendários. Entrei por ele - porta que se fechou às minhas costas - num mundo paralelo, tao meu quanto de ninguém, tao sem dono como todos. Serviu-me como que feito por medida, nem pequeno nem grande. A mágica de ter todo e apenas o tamanho que merece, espacoso o suficiente para que nao transborde às linhas alheias, estreito o bastante para que nao me afrouxe à cair.

E sumi na multidao.

21 de nov. de 2010

Domingo

Sao 17:45, mas a escuridao é de meia noite. Faz tres graus e reconheco em mim habitos antes impensaveis. Os daqui falam sobre os prazeres do ar puro do lado de fora quando em dias gelados. Domingo. Comeco de inverno e baixa temporada. Estou trabalhando pela primeira vez sozinha no hostel. Uma paz e quietude do dia em que até Deus descansou. No hall somente eu e talvez alguns hospedes calados sentados aos computadores. Trouxe na bolsa um bom livro. Encotrei na internet o PFD de outro a que pensava comprar. Escrevo. Na rádio, melodias e poesias brasileiras. A solidao pode trazer tanta calma, tantas liberdades. Acabo de voltar de um cigarro. Sim, eles tem razao, respirar dessa ar é como beber agua fresca da bica. Mas narciso acha feio o que nao é espelho. Tardo, mas surpresa me alegro em ver que nao falho na transformacao. Pouco a pouco, volto sempre a ser quem nunca fui. A lua, no ato máximo de cheia, tao baixa e grande que pode ser mal interpretada. Disseram-me uma vez que quando ela se encontra em tal estado, faz-se por ela pedidos a Iemanja. Pois, sim. Que me faca forte e justa. Além disso, só quero saúde. Amém.
"Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características
psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada
capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza,
curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm
grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Tem
experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma
determinação feroz e extrema coragem.

No entanto, as duas espécies foram perseguidas e acossadas, sendo-lhes
falsamente atribuído o fato de serem trapaceiros e vorazes, excessivamente agressivos e de terem menor valor do que seus detratores. Foram alvo daqueles que prefeririam arrasar as matas virgens bem como os arredores selvagens da psique, erradicando o que fosse instintivo, sem deixar que dele restasse nenhum sinal. A atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente."

Trecho do prefácio de Mulheres que correm com os Lobos
CLARISSA PINKOLA ESTÉS

O livro inteiro está disponível em PDF
http://veterinariosnodiva.com.br/books/MULHERES_QUE_CORREM_COM_OS_LOBOS.pdf

9 de nov. de 2010

Amor e meeeeedo

"Narrador
O amor elimina o medo, mas reciprocamente o medo elimina o amor. E não apenas o amor. O medo elimina a inteligência, elimina a bondade, elimina todo pensamento de beleza e verdade. Só persiste o desespero mudo ou forçadamente jovial de quem pressente a obscena presença no canto do quarto e sabe que a porta está trancada, que não há janelas. E então a coisa acomete. Ele sente uma mão na sua manga, respira um bafo fétido, quando o ajudante do carrasco se inclina quase amorosamente para ele (...). E o medo, meus bons amigos, o medo é a própria base e fundamento da vida moderna. Medo da tão apregoada tecnologia que, enquanto eleva o nosso padrão de vida, aumenta a probabilidade de nossa morte violenta. Medo da ciência que arrebata com uma das mãos ainda mais do que tão prodigamente distribui com a outra. Medo das instituições manifestamente fatais pelas quais, em nossa lealdade suicida, estamos prontos a matar ou morrer. Medo dos grandes homens que elevamos, por aclamação popular, a um poder que eles usam, inevitavelmente, para nos massacrar e escravizar. Medo da guerra que nós não queremos e todavia tudo fazemos para desencadear."

6 de nov. de 2010

Caítulo XLIII - Voce tem medo?

"De repente, cessando a reflexao, fitou em mim os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo.
- Medo?
- Sim, pergunto se voce tem medo.
- Medo de que?
- Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, de andar, de trabalhar..."

19 de out. de 2010

E como!

Uma voltinha pela minha classe de alemao, que tem o formato de U e que se fecha com o professor - alemao, naturalmente -, uma voltinha rapida pelo mundo. De uma ponta a outra, segue-se assim: Espanha, China, Itália, Argentina, Yemen, Franca, Brasil (eu), Coreia, Itália, China, Austrália, Franca, Líbano, China, Israel, Itália e Alemanha. Só quando realmente paro pra ver é que me espanto. Como na primeira vez que senti isso, ha exatos dez anos, quando comprando os tickets de metro para DC, um casal de velhinhos nos perguntou de onde eramos e foi um susto geral, para eles e para nós. Depois de um ano nos E.U.A, escrevi pra Rene, nossa coordenaora de area, agradecendo por me mostrar que o mundo era finalmente aos meus olhos pequeno e grande ao mesmo tempo. Ate hoje nao sei explicar essa sensacao. Mas tem a ver com conhecer pessoas de lugares tao distantes, mas que ao mesmo tempo sao tais como eu. Na maior parte do tempo, nao eramos de país nenhum, eramos adolescentes iguais entre si e comuns a todos os outros. Assim como hoje, o que muda é a origem, mas o cume me pareceu o mesmo!

E como estou nessa onda, e como estou fazendo aulas de swing, e como tenho visto em abundancia calcas curtas, suspensorios e chapeuzinhos de vovo, e como tenho ido muito a shows de bandinhas de clown Jazz, e como acabei de falar com a Pi, e como estou nessas de conhecer outras que nao a musica brasileira, e como Eve, a francesinha que foi minha dupla ontem, me indicou e eu gostei - do clipe, da música e principalmente do nome da banda - , com voces, Les Ogres de Barback