9 de fev. de 2010

4 de fev. de 2010

Impulso

O indivíduo pode visar numerosos objetivos pessoais, finalidades, esperencas, perspectivas, que lhe deem o impulso para grandes esforcos e elevedas atividades; mas, quando o elemento pessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, nao obstante toda agitacao exterior, carece no fundo de esperancas e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silencio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas a todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda atividade e de todo esforco - entao se tornará inevitável, justamente entre as naturezas mais retas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e organica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa e medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória à pergunta "Para que?", é indispensável ou um isolamento moral e uma independencia, como raras vezes se encontram e tem um que heróico, ou entao uma vitalidade muito robusta.

19 de jan. de 2010

Evaporar

Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar

Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar

O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei

E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar

Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar

O rio fica lá
a água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar

Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar

Ahh deixar pra trás
Sais e minerais, evaporar!

17 de jan. de 2010

Wieder Hier

Se foi dfícil? Sim. Foi estranho estar lá com a sensacao que nada mais me pertence, nem eu a mim mesma como costumava ser. Aliás, tudo deixou de me pertencer antes mesmo que eu me despercebesse. Se doeu voltar? Certamente me doeu, e muito, partir. Mas chegar, para grande surpresa geral, me fez relaxar e sorrir leve afinal. Porque aqui tenho alguma coisa, mas nao sei exatamente o que. Sei que é grande, livre e principalmente minha.

23 de dez. de 2009

Por Enquanto

Como ele não tinha nada o que fazer, foi fazer pipi. E depois ficou a zero mesmo.
Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tudo isso é por enquanto. Enquanto se vive.
Hoje me telefonou uma moça chorando, dizendo que seu pai morrera. É assim, sem mais nem menos.
Um dos meus filhos está fora do Brasil, o outro veio almoçar comigo. A carne estava tão dura que mal se podia mastigar. Mas bebemos um vinho rosé gelado. E conversamos. Eu tinha pedido para ele não sucumbir à imposição do comércio que explora o dia das mães. Ele fez o que pedi: não me deu nada. Ou melhor me deu tudo: a sua presença.
Trabalhei o dia inteiro, são dez para as seis. O telefone não toca. Estou sozinha. Sozinha no mundo e no espaço. E quando telefono, o telefone chama e ninguém atende. Ou dizem: está dormindo.
A questão é saber aguentar. Pois a coisa é mesmo assim. Às vezes não se tem nada a fazer e então se faz pipi.
Mas se Deus nos fez assim, que assim sejamos. De mãos abanando. Sem assunto.
Sexta-feira de noite fui a uma festa, eu nem sabia que era aniversário do meu amigo, sua mulher não me dissera. Tinha muita gente. Notei que muitas pessoas se sentiam pouco avontade.
Que faço? Telefone a mim mesma? Vai dar um triste sinal de ocupado, eu sei, uma vez já liguei distraida para o meu próprio número. Como acordo quem está dormindo? como chamo quem quero chamar? o que fazer? Nada: porque é domindo e até Deus descansou. Mas eu trabalhei sozinha o dia inteiro.
Mas agora quem estava dormindo já acordou e vem me ver às oito horas. São seis e cinco.
Estamos no chamado "veranico de maio": grande calor. Meus dedos doem de tanto eu bater à máquina. Com a ponta dos dedos não se brinca. É pela ponta dos dedos que se recebem os fluidos.
Eu deveria ter me oferecido para ir ao enterro do pai da moça? A morte seria hoje de mais para mim. Já sei o que vou fazer: vou comer. Depois eu volto. Fui à cozinha, a cozinheira por acaso não está de folga e vai esquentar comida para mim. Minha cozinheira é enorme de gorda: pesa noventa quilos. Noventa quilos de insegurança, noventa quilos de medo. Tenho vontade de beijar seu rosto preto e liso mas ela não entenderia. Voltei à máquina enquanto ela esquentava a comida. Descobri que estou com fome. Mal posso esperar que ela me chame.
Ah, já sei o que vou fazer: vou mudar de roupa. Depois eu como, e depois volto à máquina. Até já.
Já comi. Estava ótimo. Tomei um pouco de rosé. Agora vou tomar um café. E refrigerar a sala: no Brasil ar-refrigerado não é um luxo, é uma necessidade. Sobretudo para pessoa que, como eu, sofre demais com o calor. São seis e meia. Liguei meu rádio de pilha. Para o Ministério da Educação. Mas que música triste! não é preciso ser triste para ser bem-educado. Vou convidar Chico Buarque, Tom Jobim e Caetano Veloso e que cada um traga a sua viola. Quero alegria, melancolia me mata aos poucos.
Quando a gente começa a se perguntar: para quê? então as coisas não vão bem. E eu estou me perguntando para quê. Mas bem sei que é apenas "por enquanto". São vinte para as sete. E para que é que são vinte para as sete?
Nesse intervalo dei um telefonema e, para o meu gáudio, já são dez para sete. Nunca na vida eu disse essa coisa de "para o meu gáudio". É muito esquisito. De vez enquando eu fico meio machadiana. Por falar em Machado de Assis, estou com saudades dele. Parece mentira mas não tenho nenhum livro dele em minha estante. José de Alencar eu nem me lembro se li alguma vez.
Estou com saudade. Saudades dos meus filhos, sim, carne de minha carne. Carne fraca e eu não li todos os livros. La chair est triste.
Mas a gente fuma e melhora logo. São cinco para as sete. Se me descuido, morro. É muito fácil. É uma questão do relógio parar. Faltam três minutos para as sete. Ligo ou não ligo a televisão? Mas é que é tão chato ver televisão sozinha.
Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes.