12 de ago. de 2009

Um gole de vinho. Uma ameaca de insonia. A arte dele. Um pedaco de mim

Há noites minguantes em que temo dormir. Nestas, leio compulsivamente. Minto olhando-me nos olhos - jamais pararei. Sigo nas linhas fugindo do inevitavel, do cair no próximo momento: o silencio e a escuridao quando resolvem me encostar. Ontem foi assim. Devorei ofegante como um animal faminto e selvagem todo o Trópico de Cancer, o grito e o desabafo verborragico e tragicomico de Miller. Corri pelas páginas num gozo tépido, temendo parar e ficar sem saber o que fazer de mim. Leitura sado que veio dar na cara. Alcool derramado em feridas abertas. Eu me agarrando a ele desesperadamente. Uma dupla flagelada, mas sedenta, em pé e em frente. Um prazer mórbido ao descobrir em nova dor uma forca desconhecida, sobrevivente. Um desafio a coragem, uma afronta ao medo. Seguia pelas páginas como se fossem preludios vencidos da minha própria vida. Sem piedade, porém cheias de bom humor. A verdade nua e crua, provocante, me chamando á cama, mordiscando os lábios gordos e rubros. A seducao regurgitada de toda essa vida, esse ser e existir de um capitulo tao sórdido e tao belo. E me rendi plácida e inteira, a ele e a mim. A caminhada bebada e equilibristas da madrugada que há em todo dia. A estranha beleza das melancolias, o sliencio inquieto daquilo que sangra enquanto revela o colo fertil e vivaz. Sim. Ontem foi assim. Um embriagante deleite compulsivo nervoso nas páginas espelhadas de um louco avante, um despatriado americano, ironico e escrachado, fazendo piadas das suas insanas e divertidas misérias na Paris de 30. Sou um cliche anonimo das repeticoes do tempo. Enfada, consigo enfim dormir.

Nenhum comentário: